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A Jamaica sem Dancehall: apropriação estética e falta de pontes culturais em Lisboa
Recentemente, deparei-me com um projeto no YouTube cujo conceito girava em torno da “Jamaica”: bandeiras, outfits coloridos, toda a estética associada ao país. Contudo, quando a música começou, não era Dancehall, Reggae ou qualquer outra expressão caribenha — era Afrobeat e Amapiano. Nada contra esses estilos, que têm o seu espaço e vitalidade própria, mas chamou-me a atenção a forma como a imagem jamaicana foi apropriada, enquanto a sua música, essência e energia ficaram de fora.
Esta situação não é isolada. Em Lisboa, há uma clara ausência de uma ponte cultural com a música e a cultura caribenha. Ao contrário de cidades como Londres, Amesterdão ou até pequenas cidades europeias como Gotemburgo, na Suécia — onde existem comunidades jamaicanas e caribenhas fortes que moldaram a cultura local — aqui o cenário é outro. A comunidade caribenha é reduzida e os africanos dos PALOPs, que têm grande expressão cultural na cidade, não se interessam tanto por Dancehall ou Reggae. O foco recai em sonoridades como Kizomba, Afro House ou Kuduro, estilos que fazem parte da identidade africana e da diáspora lusófona.
O resultado é este: a estética jamaicana é celebrada visualmente, mas a sua música e cultura permanecem ausentes da narrativa.
Os aspetos positivos do presente
Apesar dessa falta de ponte cultural, há pontos que merecem destaque. Em Lisboa existe uma grande quantidade de DJs ativos, criativos e comprometidos com a cena musical, tanto no Dancehall como no Dub. Além disso, a influência de Richie Campbell foi determinante para a cena urbana em Portugal: muitos dos artistas mais sonantes do pop nacional utilizam hoje instrumentais que, em vários casos, soam bastante próximos dos riddims de Dancehall.
Contudo, essa aproximação sonora não se refletiu no crescimento das festas de Dancehall em Lisboa ou no resto do país. Houve um tempo em que o movimento era forte: tínhamos a presença regular de grandes nomes do Reggae e do Dancehall internacional, com público informado, dedicado e participativo. Mas esse público envelheceu, deixou de frequentar eventos e, de certa forma, o género deixou de estar “na moda”.
Nos últimos anos, com o fenómeno dos digital nomads e o aumento da imigração em Portugal, Lisboa tem recebido mais jamaicanos, bem como africanos vindos de países como o Quénia e o Gana — comunidades que consomem e valorizam o Dancehall. Este crescimento abre espaço para uma nova energia e para a possibilidade de revitalizar o movimento, desde que haja projetos e eventos que consigam criar esses pontos de encontro culturais.
Atualmente, já existem pessoas jamaicanas a viver na área metropolitana de Lisboa, como é o caso do Rum and Tickles, que organiza eventos privados onde a gastronomia jamaicana ganha destaque e se cruza com a cultura local.
Um movimento a revitalizar
O projeto Take It Easy, fundado por Campos dos Nubai Sound, procura precisamente transmitir a verdadeira essência da cultura Dancehall e caribenha em Lisboa. A ideia é ir além da música: integrar também a comida, a dança, a energia e o espírito comunitário que caracterizam estas culturas, e ao mesmo tempo apresentá-los a um novo tipo de público. É por essa razão que tenho uma ligação tão forte com este projeto e colaboro com o Campos sempre que surge a oportunidade. A Bashment também tem desempenhado um papel importante ao dinamizar e aproximar estas sonoridades de novas audiências.
Não se trata apenas de resgatar algo que já existiu, mas de abrir espaço para que uma nova geração possa viver o Dancehall de forma autêntica e vibrante em Lisboa.
O desafio do público e a pressão do “caminho seguro”
Apesar do talento local e da presença de DJs dedicados ao Dancehall e ao Dub, há ainda um obstáculo significativo: a falta de interesse do público generalista por essa sonoridade. Isso acaba por empurrar muitos DJs para o “caminho seguro” — tocar os hits de Afrobeat e os temas de Amapiano que circulam no TikTok e garantem reações imediatas na pista.
Um exemplo claro aconteceu numa festa da Bashment, no Village Underground. Dias depois de Vybz Kartel ter sido libertado, preparei um segmento especial dedicado ao artista — um momento carregado de simbolismo para quem acompanha a cultura Dancehall. No entanto, no meio desse set, alguém do público aproximou-se com o telemóvel na mão… a pedir-me Amapiano. Essa situação, que por si só já é reveladora, mostra bem como o público ainda não reconhece nem valoriza a profundidade e relevância da música caribenha, preferindo seguir o que está “na moda” nas redes sociais.
É necessário mais do que estética: é preciso mergulhar na essência da cultura jamaicana e caribenha, abraçar a sua música, a sua dança, a sua gastronomia e o seu espírito.
Projetos como a Take It Easy, idealizado por Campos dos Nubai Sound, ou a Bashment, dinamizada por Don Andre, juntamente com a colaboração de várias pessoas apaixonadas por esta cultura, podem ser catalisadores dessa mudança — e recolocar Lisboa no mapa do Dancehall, não só para o público local, mas também para quem está de passagem ou de férias na cidade.
Uma solução fora da caixa
Uma possível solução para criar pontes culturais passa por misturar as raízes africanas dos PALOPs com a energia caribenha. Por exemplo, imaginar um artista jamaicano a cantar por cima de um beat de funaná, ou juntar num só prato o funge angolano com o jerk chicken jamaicano. Essa fusão não só mostraria respeito e curiosidade pelas duas culturas, como também poderia despertar o interesse de um público mais alargado, criando algo novo sem perder autenticidade.



